ENTERRE SEUS MORTOS
#resenhas
Comecei a ver porque achei o título muito interessante, por ter Marjorie Estiano e porque gostaria de saber se, desta vez, eu seria capaz de entender tudo o que o Selton Mello diz. Amo muito, mas sem fone de ouvido, ouvi-lo integralmente, só consegui no “Ainda Estamos aqui.”
O filme começa com uma sequencia de abertura poderosa e instigante. Fiquei presa na curiosidade de saber o que aconteceria. Não é a todo momento que temos distopia nacional. Esta tem origem no livro de mesmo título da autora Ana Paula Maia, que eu não li porque não consigo ler livros distópicos. O único que consegui foi “Não Verás País Nenhum”; livro que fez de mim leitora; sócia do Clube do Livro; fã do Inácio Loyolla Brandão; pessoa que pegava metrô pra conseguir ler com mais conforto e ar condicionado.
Apesar disso tudo e com essa exceção, nunca terminei um livro do gênero. Acho opressivo, até porque a maioria das distopias são tão reais e presentes que me incomoda saber que algum autor brilhante pensou estar vislumbrando um futuro do presente que tem tudo para dar errado. Será que passa algum ônibus na bolha que ele mora?
Quase sempre artes distópicas criticam comportamentos sociais, trazem avisos desesperados nas possibilidades de resultados catastróficos que já estão em andamento na realidade ainda não para todos. Posso estar enganada, mas penso que o autor de distopias está à janela, ouvindo o noticiário, talvez, quem sabe lembrando de algumas falas da sua cozinheira, motorista ou porteiro. Esse povo para quem as tragédias e o caos começam antes do restante do mundo, nas bandas pestigiadas.
Neste longa as catástrofes climáticas são mencionadas e acontecem em uma ou duas vezes, me pareceu que a ideia do diretor Marco Dutra seria destacar o caos que cresce na alma a partir dos múltiplos desrespeitos aos quais a sociedade organizada e civilizada a submete, sempre ancorada nas religiões estabelecidas, com liderança empoderada e rica à custa dos atormentados arregimentados com promessas vazias de salvação — em outro mundo — porque neste, só eles se salvam.
Dito isto, Enterre seus Mortos tem uma ambientação nada futurista, visual bem enquadrado nos dias atuais, apesar de na primeira sequência batermos de frente com o personagem que traz a primeira crítica. Após provocar um acidente, a criatura diz que é engenheiro espacial, que trabalha com esse tipo de viagem porque essa é a melhor opção para as pessoas. E aí, toma uma “invetida” da personagem principal (Selton Melo). Esse pequeno trecho é tão poderoso que fiquei imaginando que o personagem teria mais espaço na trama que começa pesada. Justamente este causador do acidente no maior estilo “sabe com quem está falando?”, reclama que animais são atendidos e seres humanos não são socorridos. Confesso que pensei nas madames com seus petzinhos que vão ao salão tingir-lhes os pelos, cortar as unhas e comer petiscos maravihosos. Concordei com o tipo, apesar da sua antipatia, embora que seria melhor para o Brasil — local onde as ações se desenrolam — que não houvesse o tipo de atendimento proposto no filme, onde cada personagem cumpre com o seu dever e se encaixa na burocracia.
Selton Melo interpreta Edgar Wilson. Não é sensacional? Ele é chamado por esse nome o tempo inteiro. Nenhum apelido, nem nomezinho fofo nas cenas com a namorada Ester (Marjorie Estiano). Pois bem, Edgar Wilson trabalha recolhendo carcaças de animais atropelados nas estradas. Ele não socorre corpos humanos vivos ou mortos nem mesmo quando a ambulância e rabecão estão quebrados — e isto tem uma relação tenebrosa com o que acontece quando ele tenta fazer diferente, mas seria um espoiler devastador. Apenas prestem atenção e depois vem aqui fofocar se estou errada. Sua namorada é a sua chefe que, por rádio indica onde estão as ocorrências. Junto com ele trabalha o Tomás, um padre que foi excomungado (Danilo Grangheia), mas que continua usando gola de padre, roupa preta e dando extrema-unção em todo ser humano moribundo que encontra, mesmo que não seja recolhido pela caminhonete do Edgar Wilson que só recolhe animais.
Nesta cidade, fictícia, do interior chamada Abalurdes que está num futuro onde foguetes (na verdade um) transitam pelos céus apesar de as casas, o asfalto, os postes de luz e árvores serem exatamente como hoje e o calendário em algum momento indicar um ano do século 18, chove granito. Isto mesmo, granito e não granizo. A principal comunicação é por rádio amador e rádio — no carro. Em algum momento rola uma gravação num CD ou DVD. Ninguém fala de internet, não lembro de ninguém usando. Até aqui chamei o filme de distopia, mas poderia ser um terror leve, terror apocalíptico, poderia ser faroeste contemporâneo e mais um monte de gêneros. Senti que havia um maior interesse em mostrar as personagens, seus dramas, rendição, escuridão, caos e domônios interiores do que necessariamente o ambiente, contexto e condições de vida fundamentais para que personagens tivessem os problemas que têm. Achei a Beth Faria pouco aproveitada na pele da mãe da namorada do Edgard Wilson. Senti no filme, uma certa preguiça de penetrar mais fundo nas críticas sociais levantadas, principalmente as relacionadas com uma nova denominação religiosa que no todo é bem antiga e envolve uma beberagem a partir da qual controlam-se as pessoas. Três doses — três passos — e a criatura tem o cérebro lavado e todo novo porque gente sem pecado não sobrevive naquele ambiente que é o epílogo do fim do mundo, mas me deixou com impressão de que esse epílogo já está acontecendo e que o fim do mundo não acontecerá jamais.
Então, me peguei pensando por que querer entender cada cena do filme? Para quê entender cada mensagem? Principalmente nas simbologias que são essenciais na narrativa mesmo que não explicadas, mas são capazes de explicar alguma coisa. A vida não é para ser compreendida. A vida, pelo menos a humana, não tem o menor sentido e não vale a pena entender integralmente um filme com final em aberto.
Tenho dúvidas se este drama ficará na minha cabeça por muito tempo. Não tomei sustos, não acertei o que aconteceria com as personagens. Tem andamento lento para meu gosto. Há uma cena onde um pai pede a ele para levar o filho e eu jurava que ele tinha feito isso, mas o querido Edgar Wilson era bem mais canalha do que eu poderia imaginar e isso me desmontou por não ser ele o herói salvador apesar de perdedor. Edgar Wilson tem sonambulismo, intuições, transtornos que se acalmam com remédios e estes estavam proscritos. Uma vez conseguindo na sorte um vidro do último remédio do planeta não vi nenhuma modificação no seu comportamento que, inclusive, piorou. Edgar Wilson tem um demônio dentro de si e Selton Mello me ludibriou ao imprimir nele delicadeza mesmo com a comunicação rudimentar, o ambiente grotesco e as escolhas que somos levados a fazer.
É um bom filme? Com certeza, pois estou até agora pensando nele. Afinal, a vida não é para ser entendida, mas filmes devem, sim, ser compreendidos para que a vida
#filme #resenhas #distopia #filmenacional


